Reflexões sobre o uso do subjuntivo PDF Print E-mail
Domingo, 11 Setembro 2005 18:01

"O ancião mais velho da aldeia, desconfiando que nenhum daqueles vivas havia agradado aos fascistas, pensou em dar um "Viva Garibaldi!', mas teve receio de também não agradar. Deu um "Viva todos!'. Foi fichado como liberal. É isso aí. Viva todos."

O trecho acima é um fragmento de saborosa crônica de Carlos Heitor Cony, recentemente publicada na Folha, texto em que o autor desenvolve uma analogia entre o "viva todos" proferido pelo ancião da aldeia e o grito de "fora, todos" já ouvido na sociedade neste momento de sucessivos escândalos de corrupção.

A questão gramatical suscitada pelo texto está na construção "Viva todos". É possível que a maioria dos usuários da língua perceba hoje a palavra "viva" nesse contexto como uma interjeição, o que justifica o seu emprego como termo invariável. É fato, entretanto, que esse "viva" é, na origem, a forma de presente do subjuntivo do verbo "viver", que, em princípio, concorda com o seu sujeito ("Vivam todos", portanto).

Gramáticos, entre os quais Celso Cunha e Lindley Cintra, já consideram possível considerar esse "viva" uma interjeição, o que nos faculta seu uso no singular em quaisquer situações.

Essa percepção do subjuntivo como uma interjeição pode advir, entre outras razões, do fato de, normalmente, verbos nesse modo verbal completarem outros, isto é, aparecerem nas orações subordinadas, não nas orações independentes. O próprio termo "subjunctivus", em latim, significa "aquilo que serve para subordinar". Em outras palavras, o subjuntivo é o modo próprio das orações subordinadas e, particularmente, daquelas que exprimem ações ainda não realizadas em que prevalecem as idéias de desejo, hipótese, dúvida, indignação, ordem ou proibição.

Não é outro o motivo de empregarmos o subjuntivo nas orações que completam verbos como "desejar", "duvidar", "implorar", "lamentar", "negar", "ordenar", "pedir", "proibir", "querer", "rogar", "suplicar" etc. Assim: "Deseja que todos saibam a verdade", "Negou que tivesse recebido propina", "Pediu que fizessem investigações", "Ordenou que o seguissem", "Proibiu que dessem declarações à imprensa","Lamentou que tivesse ocorrido um mal-entendido".

Há frases, entretanto, que, bastante conhecidas e repetidas, apresentam o subjuntivo independente: "Deus te abençoe", "Raios o partam!", "Macacos me mordam!", "Valha-me Deus!". Observe que todas elas exprimem um desejo de quem as profere. Podem ser compreendidas como construções resultantes de períodos compostos em que tenha havido o apagamento de uma oração principal do tipo "Eu desejo que" ("Eu desejo que Deus te abençoe" etc.). É o tipo de construção que ocorre na oração católica "Pai Nosso": "(...) santificado seja o Vosso nome/ seja feita a Vossa vontade", ou seja, desejamos que o Vosso nome seja santificado e que a Vossa vontade seja feita.

Hoje é perceptível certa hesitação ante o uso do subjuntivo. Não são incomuns frases do tipo "Suspeita-se que eles foram omissos". Ora, se a omissão é objeto de suspeita, não de certeza, o ideal é que se empregue para exprimir essa circunstância o modo subjuntivo em vez do indicativo. Assim: "Suspeita-se que eles tenham sido omissos". Caso se tratasse de certeza, seria correto o emprego do indicativo. Assim: "Fulano afirmou que eles foram omissos".

Outro tipo de imprecisão ligado ao uso do subjuntivo é o que se verifica numa frase como a seguinte: "O Banco Central também investiga a compra de Tevez e desconfia que a operação pode configurar lavagem de dinheiro". O verbo "desconfiar" sugere dúvida, portanto, na oração que o completa, deve ser usado o modo subjuntivo, ou seja, "o Banco Central desconfia que a operação configure lavagem de dinheiro".

Convém observar que o redator emprega o verbo auxiliar "poder" (no indicativo) para exprimir a idéia de possibilidade, própria do subjuntivo. A construção resultante não é, porém, a ideal, visto que a língua dispõe de um mecanismo apropriado para esse tipo de situação, que é o modo subjuntivo. 

Por Thaís Nicoleti de Camargo

Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e autora dos livros "Redação Linha a Linha" (Publifolha) e "Uso da Vírgula" (Manole).
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Fonte: FOLHA Online. Disponível em: <
http://www1.folha.uol.com.br>. Acesso em: 10 set. 2005.